Eu tinha um viveiro com muitos passarinhos. Um dia resolvi parar de
alimentá-los. Eles secaram e morreram. Outros conseguiram fugir de suas
respectivas gaiolas. Fiz isso sem dó. Eu não os queria por perto e não aguentava
mais aquele monte de piu. Nem seus cantos e esguelos. Nem encantos e poesias.
Por sinal, sobraram dois. Um nascera ali, outro teria vindo de longe. O que veio
de longe, se alimentava e não voltava mais. Voltava sim, mas demorava pra
voltar. Porém eu tinha a certeza que ele sempre iria voltar. O que nascera ali,
se alimentava e conseguia fugir. Voltava também, em um determinado tempo mais
rápido que o outro. Um dia resolvi prender o que eu não tinha visto crescer.
Ficou um bom tempo sendo cuidado, mesmo assistindo de camarote todos os outros
passarinhos morrerem ao seu redor. Eu fui frio com eles. Eu tinha o passarinho
mais lindo, do canto mais alto e da penugem mais forte. Eu poderia vendê-lo ou
guardá-lo só pra mim em um ato egoísta ou capitalista.
Num outro belo dia,
cortei seu pescoço com uma faquinha de serra. Assim, lembrei que ainda me
restava uma gaiola e um passarinho perdido por aí. Aquele que eu tinha criado
desde sempre, voltou pro seu cantinho. Ali em cima na prateleira. Do lado das
velas e quase perto do passarinho degolado pelo qual escondi em uma caixinha de
fósforo. (...) A mesma história se repetiu. Eu o soltei e disse pra voar o mais
longe possível. Como ele sabia só o caminho de volta, ele voltou. Voltava
sempre. Às vezes eu o degolava, às vezes eu o alimentava.
Vezenquando eu fingia
não o ver. Vezenquando eu sentia necessidade de aprisioná-lo. Sei de todos os
detalhes de cada um ainda. Cada piu, cada pena de suas asas, a cor dos olhos,
das garras. Sei dos outros também. Comecei escrever desde então.Depois de um tempo, no meu viveiro nunca mais apareceram passarinhos.
p.s.1.: Deixo a janela aberta, caso algum passarinho entre. A gaiola também. O alimento e toda a parte da degolação também, caso necessário.
p.s.2.: Caso você seja um passarinho que tenha fugido pra longe, saiba que eu
sinto falta de você e dos seus pius.
Por Jho Oliveira.

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