
Histórias da Menina Bonita
Lembro de quando eu amei um dia. Aquele marinheiro era quem sabia me respeitar, não tinha vergonha de andar comigo do meu lado. Nossas mãos se completavam. Era lindo de se ver. Forte, alto, olhos castanhos que brilhavam como diamantes ao me olhar. Ele tinha uma barba linda. Tinha o rosto marcado por ser quem era e histórias pelas quais eu não me cansava de ouvir. Paro e penso de vez em quando que não sei se ainda fazem pessoas como antigamente. Eu trabalhava em uma lanchonete. Era uma cidade pacata. Todos se conheciam. Já sabia os horários que os barcos chegavam. Sabia também que faltava vinte minutos pro meu almoço. Costumava ir para as pedras a caminho do porto. Nesse sábado eu resolvi ficar, o dono da lanchonete disse que iria chover. Como ele era um homem muito velho, eu e as outras meninas confiávamos nele. Pois bem. Ouvia o barulho dos marinheiros felizes chegando para comer alguma coisa. Meu tempo já teria acabado, fui para os fundos. Ouvi Rose gritando com um ar de que parecia que teria tomado um banho de água bem gelada naqueles dias de calor. Fui ver o que era. Fiquei uns dois minutos paralisada. Era o homem mais bonito que eu já tinha visto em toda a minha vida e não aguentava, não parar de olhar, porque ele me olhava também com aquele sorriso gigantesco e aquela barba pedindo um carinho. Ele veio em minha direção e pediu um chá. Achei estranho porque todos marinheiros pediam café. Fui fazer o chá enquanto ele me olhava. Aquela sensação de estar sendo vigiada aconteceu. Ri baixo. Terminei de fazer o chá e o servi. Ele perguntou meu nome e eu disse rapidamente sim. Pois bem, eu era jovem e não sabia de suas intenções comigo, porém, ao contrário em dizer meu nome, eu só respondi que sim. Nos encontramos mais tarde.
O marinheiro era daqueles que abrem a porta do carro pra você, que mandam flores, que arrumam sua cadeira antes de você sentar ou o mínimo de todos: que deixa você passar primeiro na sua frente por ser mulher. Encontrar alguém que te respeite de todas as formas, que te ache linda com o rímel na sobrancelha e com remela no olho de manhã tá difícil. Principalmente com um cabelo gigantesco que eu tinha. Dava quase no céu. Eu interlaçava ele, sempre ficara ótimo e com aquele modelo de avó.

Por fim, me apaixonei. Tivemos dias de encontros até que então ele teve que
voltar para seu mar. Eu pra minha lanchonete. Nos despedimos. Ele me prometeu que voltaria. É tão mais fácil se ele mentisse. Falasse que não voltaria mais e que só me usou. Mas não. Nós não fingimos. Nem eu meus orgasmos, nem ele as crises de riso. Fico chateada ao ver todos ao redor se relacionando, se amando, se admirando, mentindo, traindo, e me sinto sozinha. Mais sozinha do que chateada. Abandonada não.
Pintei meus cabelos de várias cores depois que ele se foi.
Já fui loira, já fui ruiva, já fui morena. Tudo pra tentar agradar outros marinheiros. Acabei não me agradando, mas chamei atenção e viram minha presença. Espero que os ventos levem essas notícias pra ele. Eu espero ainda. No porto, aflita e com as mãos amarradas. Penso: será que no meu porto nenhum barquinho vai encostar? Pode ser aquele mesmo, furado, arranhado, usado e tudo mais. Espero que nos mares da vida ele pelo menos descubra qual é meu nome.
Por Jho Oliveira.


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